
Em um mundo onde minerar Bitcoin significa armazéns cheios de máquinas e contas de energia altíssimas, a equipe da Pi Network propôs uma alternativa. Os desenvolvedores do projeto afirmam que não é preciso usar energia em escala industrial para minerar criptomoedas — basta apertar um botão no celular.
A Pi Network dividiu o mundo em dois grupos: alguns defendem o projeto e acreditam em seu potencial, enquanto outros dizem que a plataforma é comandada por verdadeiros golpistas. Vamos analisar os argumentos de ambos os lados para descobrir quem tem razão.
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De Uma Ideia de Stanford a Um Fenômeno Global
A Pi Network nasceu em Stanford em 2018. Os fundadores do projeto são o Dr. Nicolas Kokkalis e a Dra. Chengdiao Fan — especialistas em ciência da computação e antropologia computacional.
Em 14 de março de 2019 — o Dia do Pi (3.14) — o projeto lançou seu aplicativo e publicou o whitepaper. Segundo o documento, a missão da Pi Network é tornar as criptomoedas acessíveis a todos. Para isso, os desenvolvedores propuseram abandonar a mineração tradicional.
A ideia de minerar moedas pelo celular se espalhou rapidamente. Mais de 60 milhões de usuários ativos se registraram no aplicativo e, segundo dados não oficiais, o número total de downloads ultrapassou 100 milhões. Esses números tornam a Pi Network uma das maiores comunidades cripto do mundo.

Captura de tela do site da Pi Network
A mainnet do projeto só foi lançada em fevereiro de 2025. Durante anos, muitos chamaram a Pi Network de fraude, dizendo que os usuários “mineravam” dinheiro de brinquedo. Apesar das críticas, a criptomoeda finalmente apareceu em uma exchange.
Mineração Sem Mineração
Para “minerar” Pi, o usuário só precisava apertar um botão no aplicativo uma vez por dia. O processo não exigia GPUs, fazendas de mineração nem consumo alto de energia — por isso, a Pi é frequentemente chamada de a forma mais ecológica de mineração.
Tecnicamente, porém, isso não era mineração real. Antes do lançamento da rede aberta, os usuários recebiam vales digitais que mais tarde eram convertidos em tokens reais.
Quando a Mineração de Pi Terminou
A mineração de Pi foi encerrada em 14 de março de 2025. Nesse dia terminou o último “Período de Carência” (Grace Period) para os participantes da rede. Ele foi criado para dar tempo extra aos usuários para concluir a verificação obrigatória KYC e transferir seus tokens acumulados do aplicativo móvel para a mainnet.
O período de carência foi prorrogado várias vezes porque muitos participantes enfrentaram falhas técnicas e não conseguiram verificar a identidade a tempo.
O encerramento do Grace Period foi o próximo passo lógico após o lançamento da rede aberta em fevereiro de 2025. A equipe anunciou que continuar a mineração móvel já não fazia sentido: a fase de acúmulo de teste havia terminado, e o sistema passava para uma economia real, com transferências e uso do token dentro do ecossistema.
A decisão de encerrar a mineração visava eliminar contas inativas e não verificadas, estabilizar a oferta circulante do token e preparar o projeto para futuras listagens em exchanges.
Até março de 2025, os usuários puderam verificar sua identidade e manter seus saldos, mas após o prazo final, o botão diário de “mineração” foi desativado no aplicativo.
Agora, só quem passou na verificação KYC e transferiu seus tokens para a mainnet pode participar do ecossistema, onde o desenvolvimento de aplicativos e serviços baseados em Pi continua.
Tecnologia e Princípios de Confiança
A rede é baseada no Stellar Consensus Protocol, um algoritmo construído sobre o modelo de acordo bizantino federado. Em vez do Proof-of-Work, que consome muita energia, como o Bitcoin, a Pi depende da confiança social. Os usuários formam “círculos de segurança” — grupos que garantem a integridade das transações.
Isso cria uma teia de confiança em que a segurança é garantida pela interação humana, não pelo poder computacional. Isso reflete a filosofia da Pi: o fator humano é considerado um recurso.
A Criptomoeda Pi
As tão esperadas negociações de Pi começaram em fevereiro de 2025. Curiosamente, mesmo antes do lançamento oficial das moedas, tokens falsos já circulavam no mercado, causando grande confusão.
Infelizmente para os fãs, após um pico inicial nos primeiros dias de negociação, o preço da Pi entrou em queda prolongada. No momento da redação, a moeda está 92% abaixo de seu pico histórico. A queda está amplamente ligada a problemas inflacionários do projeto, que abordaremos a seguir.

Fonte do gráfico: TradingView
O Que Há de Errado Com a Pi
O projeto tem sido alvo de muitas críticas. Vamos analisá-las.
Atrasos Infinitos no Lançamento
Durante anos, os desenvolvedores prometeram que o lançamento seria “em breve”. Sim, ele aconteceu, mas depois de tantos anos “construindo uma comunidade”, muitos perderam a paciência.
Inflação
A inflação da Pi é um dos pontos mais fracos do projeto, cada vez mais citada por analistas. No fim da mineração, em março de 2025, havia dezenas de bilhões de Pi em circulação, mas poucos casos de uso reais. As transações ocorriam dentro de um ecossistema fechado, e o preço da Pi não era determinado por um mercado aberto.
Sem demanda externa, o grande volume de tokens mina seu valor potencial. A economia do projeto acabou em uma situação em que a atividade dos usuários criava tokens mais rápido do que a rede podia dar-lhes utilidade real. Isso levou a equipe da Pi a encerrar a mineração — para limitar a emissão e tentar estabilizar o modelo econômico futuro.
Estrutura de Pirâmide
A Pi Network utiliza uma hierarquia interna de papéis. Muitos veem nela sinais de pirâmide financeira ou, pelo menos, de marketing multinível. Assim funcionava a hierarquia de mineração no aplicativo:
- Pioneer — pressiona o botão uma vez por dia.
- Contributor — forma um círculo de participantes confiáveis e aumenta os ganhos.
- Ambassador — convida novos usuários e recebe bônus.
- Node — executa o software que valida transações.
O sistema combina elementos de jogo, interação social e marketing de rede. Quanto mais pessoas participam, maior é a taxa de mineração. Por isso, a estrutura é frequentemente comparada a uma pirâmide, embora os usuários não precisem investir dinheiro diretamente.
Economia Fechada
Desde 2021, a rede operava no modo Enclosed Mainnet — o blockchain funcionava, mas estava isolado do mundo exterior. As moedas não podiam ser retiradas, vendidas nem trocadas. Os desenvolvedores explicaram isso como uma tentativa de construir primeiro infraestrutura e serviços reais e evitar especulação em exchanges.
Dentro da rede surgiram aplicativos próprios: Pi Browser, pequenos marketplaces, uma plataforma de NFT e campanhas como o PiFest, onde lojas aceitavam Pi como pagamento. Em alguns países, os usuários podiam recarregar saldo de celular ou comprar vales-presente. A escala ainda é pequena, mas essas iniciativas mantêm viva a fé da comunidade.
Pi Ainda Não Está Listada Nas Principais Exchanges
Em seis anos, a Pi ainda não apareceu em grandes plataformas como Binance ou Coinbase. As principais razões são questões de conformidade, verificação de usuários e riscos de centralização.
O episódio mais marcante ocorreu em 2025, quando a Binance realizou uma enquete: mais de 80% dos usuários votaram a favor de listar a Pi. No entanto, após uma revisão interna, a exchange recusou, citando falta de transparência, verificação incompleta e controle excessivo por parte da equipe do projeto. Isso provocou protestos na comunidade: os apoiadores começaram a dar notas baixas para a Binance nas lojas de aplicativos.
KYC e Questões de Privacidade
Para converter vales em tokens reais, os usuários precisavam passar pelo KYC — verificação de identidade. Inicialmente, o processo era feito pela Yoti; mais tarde, a Pi passou a usar seu próprio sistema. No início de 2025, cerca de 13 milhões de pessoas já haviam sido verificadas.
A verificação em massa levantou preocupações. Os usuários enviam documentos e fotos para um aplicativo que também lucra com anúncios. Não está claro como os dados são armazenados nem quem é responsável por sua segurança. Não há auditoria externa, e a proteção depende da confiança nos desenvolvedores.
Os tokens daqueles que não completam o KYC são simplesmente queimados.
Por Que a Comunidade Continua Acreditando no Projeto
Apesar das críticas, a Pi Network continua extremamente popular. Para milhões de pessoas em países em desenvolvimento, a Pi foi a primeira oportunidade de entrar no mundo das finanças digitais.
O projeto dá às pessoas um sentimento de pertencimento à indústria cripto e esperança de que seus tokens acumulados ganhem valor algum dia. Para muitos participantes, isso não é um investimento, mas uma forma de esperar pelo futuro.
Planos da Pi Network
A equipe anunciou que 2025 seria um ano decisivo. Os planos incluem expandir o KYC com o uso de IA e verificação comunitária, atualizar o protocolo para a versão v23 com suporte a contratos inteligentes, ampliar o ecossistema de aplicativos e realizar novos eventos PiFest.
A rede aberta deve permitir que os usuários transfiram e vendam tokens em exchanges externas. No entanto, o cumprimento dessas promessas depende de quão rápido o projeto resolverá questões de conformidade, segurança e transparência.
Conclusão
A Pi Network é um exemplo raro de projeto cripto em que tecnologia e dinâmica social se entrelaçam. Mostra como crença, atenção e hábito podem sustentar um ecossistema mesmo sem um mercado real. Alguns veem uma pirâmide; outros, um passo em direção a um novo modelo de economia digital.
A Pi continua sendo um experimento na fronteira entre inovação e expectativa. Seu futuro depende de a equipe conseguir transformar milhões de toques de botão em uma criptomoeda funcional — e provar que há valor real por trás da ideia.
Infelizmente, a queda de mais de 90% no preço do token sugere que a ideia não “decolou”.
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