El Salvador e o Bitcoin: Quatro anos depois

El Salvador e o Bitcoin: Quatro anos depois
8 de setembro de 2025
~7 min de leitura

Em 7 de setembro de 2025, completaram-se quatro anos desde que entrou em vigor a lei que tornou a moeda digital mais capitalizada, o bitcoin, moeda oficial em El Salvador, ao lado do dólar americano. Foi um passo histórico: o país foi o primeiro do mundo a conceder a uma criptomoeda o status de curso legal.

A equipe editorial da Quickex analisou como El Salvador mudou durante esses anos. Aqui você verá se houve um “milagre do bitcoin” — ou se todos os esforços foram em vão.

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Cronologia dos acontecimentos

Na primavera de 2021, o presidente Nayib Bukele anunciou planos para reconhecer o bitcoin como moeda nacional. Em junho, o parlamento aprovou a lei. O documento previa a aceitação obrigatória do bitcoin como pagamento e o lançamento da carteira Chivo do governo.

Em 7 de setembro de 2021, a lei entrou em vigor. No mesmo dia, as autoridades compraram os primeiros 400 bitcoins. A Chivo foi lançada simultaneamente. Todos os cidadãos do país obtiveram acesso à carteira.

Para estimular o interesse, o governo ofereceu a cada novo usuário da carteira um bônus de 30 dólares em bitcoin. Isso permitiu que milhões de cidadãos experimentassem a moeda digital pela primeira vez, mas muitos trocaram imediatamente a cripto por dólares.

Em 2022, o governo continuou comprando bitcoins. Ao mesmo tempo, as autoridades apresentaram um projeto para construir uma “cidade bitcoin” ao pé do vulcão Conchagua. A cidade foi concebida como um centro financeiro e tecnológico sem impostos sobre a renda e a propriedade, mas com IVA para financiar a infraestrutura.

O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, apresenta o projeto da cidade cripto na conferência Bitcoin Week.

O ano de 2023 mostrou que não houve uso massivo do bitcoin. A maioria dos cidadãos continuou utilizando dólares, e o interesse pela Chivo caiu drasticamente. Apesar das dificuldades, as autoridades mantiveram a política de apoio à criptomoeda.

O ano de 2024 foi marcado pelo aumento da pressão de organizações internacionais. O FMI exigiu que as autoridades de El Salvador modificassem sua legislação sobre cripto. Representantes do órgão concluíram que as regras existentes para a circulação de criptomoedas no país ameaçavam a estabilidade financeira. Também houve críticas de que a disseminação da criptomoeda poderia aumentar os riscos de lavagem de dinheiro.

Em janeiro de 2025, o parlamento aprovou as emendas exigidas pelo FMI. A partir de abril, a aceitação obrigatória do bitcoin pelas empresas tornou-se opcional. Ao mesmo tempo, El Salvador manteve o status do BTC como moeda de curso legal.

Por que El Salvador precisava do bitcoin?

El Salvador tinha várias razões para adotar o bitcoin em nível nacional:

  • As autoridades queriam reduzir a dependência da economia em relação ao dólar e atrair investimentos para o país.
  • Outro objetivo era baratear as remessas dos migrantes nos EUA, que representam uma parte significativa da renda das famílias.

O presidente Bukele também queria transformar El Salvador em um centro de inovação financeira e fazer o país se destacar entre os demais da região.

O experimento com o bitcoin também tinha o objetivo de demonstrar abertura a novas tecnologias e fortalecer o prestígio do país no cenário internacional.

Mineração com Volcano Energy

Em setembro de 2021, Bukele anunciou que El Salvador começaria a minerar bitcoins utilizando energia geotérmica dos vulcões. Em 2022, a primeira estação de mineração entrou em operação. Sua capacidade foi suficiente para minerar apenas algumas dezenas de bitcoins por ano. Em padrões globais, isso é bastante modesto. No entanto, o simbolismo do projeto mostrou-se mais importante que os números.

El Salvador declarou-se um país que minera criptomoedas exclusivamente com “energia verde”. A iniciativa foi uma resposta às inúmeras críticas contra a indústria cripto por parte dos ambientalistas. A pressão sobre os defensores das criptomoedas, por exemplo, levou o fundador da Tesla, Elon Musk, em certo momento, a deixar de aceitar pagamentos em cripto por carros.

Os apoiadores de Bukele viram um avanço de imagem na mineração vulcânica. Os críticos consideraram que os rendimentos eram demasiado pequenos em comparação com os investimentos. Apesar das críticas, a mineração de bitcoin em vulcões em El Salvador continua.

Centro de mineração cripto em El Salvador alimentado por energia vulcânica. Fonte: Twitter do presidente.

Compras de Bitcoin

Desde 2021, o governo tem adquirido bitcoins regularmente. Em 8 de setembro de 2025, a reserva estatal era de 6.313 BTC, avaliados em cerca de 701–702 milhões de dólares. A última compra foi registrada em 7 de setembro. Em comemoração ao aniversário, Bukele informou a aquisição de 21 bitcoins.

Como mudou o saldo de bitcoin de El Salvador. Fonte: Twitter de Bukele.

Em 2022, o país comprou 500 bitcoins durante uma queda de preço. Desde o final de 2023, as autoridades têm comprado um bitcoin por dia.

Em agosto de 2025, as autoridades distribuíram suas reservas em 14 endereços para melhorar a segurança e a transparência. Cada endereço contém no máximo 500 BTC.

O Fundo Monetário Internacional mostrou-se cético em relação a essas transações. O Fundo duvida da veracidade de todas as compras anunciadas devido à falta de relatórios transparentes. Seus representantes acreditam que, na realidade, as reposições da carteira estatal ocorrem por transferências de outros endereços, em vez de compras diretas de moedas.

Como o bitcoin mudou El Salvador?

A decisão das autoridades de El Salvador de apostar no bitcoin como moeda nacional tem seus prós e contras.

Resultados positivos:

  • o país atraiu a atenção mundial e tornou-se símbolo das reformas cripto;
  • criptoentusiastas e nômades digitais começaram a chegar ao país;
  • surgiram novos projetos de TI e o tesouro recebeu investimentos de empresas cripto;
  • o projeto da “cidade bitcoin” aumentou o interesse no país, embora por enquanto permaneça apenas no papel.

Consequências negativas:

  • não surgiu um uso massivo entre a população; a maioria das pessoas continua utilizando dólares;
  • a carteira estatal Chivo não atendeu às expectativas, e o número de usuários ativos diminuiu após a primeira onda de interesse;
  • as quedas no preço do bitcoin levaram repetidamente a perdas orçamentárias;
  • parte da população percebeu a reforma como uma decisão imposta de cima para baixo.

Pressão regulatória

Logo após a adoção da lei que legalizou o bitcoin, o FMI alertou El Salvador sobre os riscos para o sistema financeiro. O Fundo exigiu a revogação do uso obrigatório do bitcoin e maior transparência nas compras governamentais.

O confronto intensificou-se em 2024, quando El Salvador solicitou ao Fundo um empréstimo de 1,4 bilhão de dólares. A condição para o acordo foi a revogação da obrigatoriedade do uso de criptomoedas. Em janeiro de 2025, o parlamento aprovou as emendas correspondentes. Assim, El Salvador revogou a lei que obrigava as empresas a aceitarem criptomoedas.

As autoridades conseguiram legalizar o bitcoin?

Formalmente, a criptomoeda continua sendo moeda de curso legal. Mas, na prática, apenas uma pequena parte dos cidadãos a utiliza. Segundo dados recentes, apenas cerca de 8% da população do país utiliza cripto.

Os principais usuários são entusiastas, o setor turístico e os jovens. As grandes empresas e o setor público continuam operando principalmente em dólares.

O papel da decisão de El Salvador para a indústria cripto

Mesmo sem os resultados mais brilhantes, a iniciativa de El Salvador influenciou toda a indústria. A adoção da criptomoeda em nível nacional mostrou que um Estado pode reconhecer ativos digitais como meio oficial de pagamento.

Criptoentusiastas e investidores viajaram para o país. Falou-se de El Salvador como pioneiro na legalização cripto. Logo surgiram notícias de outros países sobre a formação de reservas cripto. Os EUA também aderiram à iniciativa.

Conclusões

Quatro anos depois, o bitcoin em El Salvador não se tornou uma moeda nacional de pleno direito. Para a maioria dos cidadãos, continua sendo um complemento exótico ao dólar.

No entanto, o país garantiu uma imagem de pioneiro. O experimento com o bitcoin consolidou o lugar de El Salvador na história cripto e demonstrou que até mesmo um pequeno Estado pode lançar um experimento financeiro de grande escala capaz de atrair a atenção mundial.

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