
A exchange Hyperliquid concluiu sua primeira grande votação de validadores. A comunidade do projeto escolheu a empresa que emitirá sua primeira stablecoin nativa, USDH. A vencedora foi a equipe da Native Markets que, para surpresa da comunidade cripto, conseguiu superar gigantes como Paxos, Frax e BitGo.
Aqui está como a Native Markets venceu, por que parte da comunidade cripto critica a escolha do emissor e o que o lançamento da USDH significa para o mercado.
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O que é Hyperliquid e por que ela precisa da USDH
Hyperliquid é uma exchange descentralizada (DEX) focada em contratos perpétuos. Em novembro de 2024, o projeto lançou sua própria blockchain L1, e no verão de 2025 já movimentava mais de 330 bilhões de dólares por mês com uma equipe de apenas 11 pessoas.
Até agora, a exchange dependia de stablecoins externas — principalmente USDC. Segundo a DeFiLlama, cerca de 95% dos depósitos na Hyperliquid (aproximadamente 5,6 bilhões de dólares) estavam em USDC. Essa dependência traz riscos:
- perda de parte das receitas para emissores externos;
- risco de censura por entidades centralizadas;
- potenciais vulnerabilidades em pontes cross-chain.
O lançamento da sua própria stablecoin, USDH, ajudará a Hyperliquid a manter receitas dentro do ecossistema e a reduzir a dependência de provedores externos.
Por que um concurso em vez de emissão interna
A Hyperliquid foi concebida desde o início como um ecossistema descentralizado em que decisões-chave são tomadas pela comunidade e não pelos administradores. O lançamento da USDH colocou esse modelo à prova. Em vez de nomear um emissor centralmente, a equipe propôs uma competição e uma votação entre validadores.
Esse formato possibilitou:
- atrair a experiência de players externos com diferentes perfis;
- comparar modelos de gestão de reservas e escolher o melhor;
- consagrar o princípio de que ativos estratégicos do ecossistema são criados por meio de votação aberta.
Como foi a corrida pelo ticker
A competição pelo direito de emitir a USDH foi anunciada em 5 de setembro de 2025 e imediatamente atraiu grande interesse. Paxos, Frax, Sky, Agora, Ethena, Curve, OpenEden e BitGo apresentaram propostas. Cada empresa trouxe seu próprio modelo de emissão e de repartição de receitas.
A Ethena acabou retirando sua proposta e apoiou a estreante Native Markets. Na plataforma de previsões Polymarket, a probabilidade de vitória da equipe chegou a ultrapassar 95%.

Votação do vencedor na corrida pela USDH. Fonte: Polymarket
A votação ocorreu entre os validadores da Hyperliquid, com poder de voto proporcional ao HYPE em staking. Era necessária uma maioria qualificada de dois terços para vencer. A Fundação Hyperliquid e o provedor de staking Kinetiq, que controlavam cerca de 63% dos tokens, abstiveram-se, deixando a decisão para a comunidade.
O que os concorrentes propuseram
A Paxos, emissora da BUSD e PYUSD, prometeu conformidade total com a lei GENIUS dos EUA e a MiCA da União Europeia, comprometendo-se a direcionar 95% da renda das reservas para recompras do token HYPE.
A Sky (antiga MakerDAO), emissora da USDS, propôs tornar a USDH multichain desde o primeiro dia via LayerZero e oferecer rendimento de 4,85% aos detentores.
A Frax Finance planejava emitir USDH em parceria com um banco nos EUA, lastreando-a integralmente em títulos do Tesouro e direcionando toda a renda ao ecossistema da Hyperliquid.
A Agora pretendia trazer a VanEck como gestora de reservas e enviar 100% dos lucros à Fundação Hyperliquid, ao mesmo tempo em que criticava a Native Markets por usar a plataforma de tokenização Bridge da Stripe.
A Curve, a OpenEden e a BitGo apresentaram propostas no último dia, mas não conseguiram apoio da comunidade.
Apesar das condições generosas dos concorrentes, venceu a proposta da Native Markets. Os validadores apostaram na equipe nativa, sinalizando confiança em sua integração com o ecossistema Hyperliquid.
Como funcionará a USDH
A stablecoin USDH será emitida na rede HyperEVM — a máquina virtual própria da Hyperliquid.
As reservas serão garantidas por dois tipos de ativos:
- reservas off-chain (dinheiro e títulos do Tesouro dos EUA) geridas pela BlackRock;
- reservas on-chain sob a gestão da Superstate via Bridge.
A USDH será integralmente lastreada por ativos, e o rendimento das reservas será dividido igualmente: metade irá para recompras de HYPE; metade para programas de desenvolvimento e adoção da USDH.
Primeiros passos após o lançamento
Max Fiege, cofundador da Native Markets, informou que nos próximos dias será apresentada a primeira Proposta de Melhoria da Hyperliquid (HIP-1) e lançado um token ERC-20 da USDH.
O projeto começará com uma fase de teste de emissão e resgate limitada a 800 dólares por transação. Depois disso, será aberto o livro de ordens spot USDH/USDC e os limites serão removidos. Fiege também convidou grandes traders a testarem a API do projeto durante a fase experimental.
Concorrência com a USDC
O lançamento da USDH pode representar um desafio à Circle e sua stablecoin USDC, que atualmente ocupa uma posição dominante no ecossistema da Hyperliquid. Segundo a DeFiLlama, cerca de 6 bilhões de dólares em reservas de USDC estão mantidos na plataforma.

Dados de reservas da USDC na Hyperliquid. Fonte: DeFiLlama
Ainda assim, a USDC e outras stablecoins externas permanecerão na plataforma como ativos cotados. Para isso, deverão cumprir condições como:
- stake mínimo de 200.000 HYPE (cerca de 10 milhões de dólares);
- mecanismo confiável de paridade com o dólar;
- liquidez suficiente em pares com HYPE e USDC.
Reação da comunidade
A decisão em favor da Native Markets gerou intenso debate.
Hasib Qureshi, sócio da empresa de capital de risco Dragonfly, chamou o processo de “farsa”, insinuando acordos de bastidores. O CEO da Helius, Mert Mumtaz, enfatizou que a situação mostra as stablecoins se transformando em commodities, e que no futuro os usuários talvez nem vejam tickers diferentes.
Alguns participantes do mercado apoiaram a vencedora, mas ressaltaram as altas expectativas.
Outros comentaristas manifestaram dúvidas quanto ao valor prático do novo ativo:
“Num mundo dominado por USDC e USDT, como a USDH pode se destacar? Além de tornar a tokenomics da Hyperliquid mais complexa, esta stablecoin não resolve problemas reais.”
Quem está por trás da Native Markets
A equipe da Native Markets foi formada especificamente para lançar a stablecoin da Hyperliquid. Ela inclui Max Fiege (investidor inicial e conselheiro da Hyperliquid); Anish Agnihotri (pesquisador e desenvolvedor de blockchain); e MC Lader (ex-presidente e COO da Uniswap Labs).
A proposta deles foi a única que combinou experiência prática com a Hyperliquid, conhecimento em trading, expertise institucional e compreensão dos processos regulatórios do DeFi.
Riscos e expectativas
Apesar da vitória, permanecem questões em torno do projeto:
- a dependência do Bridge da Stripe pode criar conflitos de interesse;
- pode ser difícil transferir liquidez da USDC para a USDH;
- a decisão de dividir os rendimentos 50/50 em vez de direcioná-los todos ao ecossistema é controversa;
- permanece o risco de mudanças na regulamentação de stablecoins nos EUA e na Europa.
Conclusões
A corrida pelo ticker USDH tornou-se um dos eventos mais notáveis de 2025. A vitória da Native Markets mostrou que, em sistemas descentralizados, a confiança da comunidade — e não apenas escala ou promessas de rendimento — pode ser decisiva.
Para a Hyperliquid, lançar a USDH é um movimento estratégico que fortalecerá sua independência e manterá as receitas dentro do ecossistema. Mas o sucesso do projeto dependerá de como a Native Markets conseguirá migrar liquidez, corresponder à confiança dos validadores e provar o valor da USDH diante do domínio da USDC e da USDT.
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